Sobre perfumes (parte1)

A perfumaria é complexa – justamente aí é que reside seu charme. Dentre tantos desentendimentos, está o do natural versus sintético. A maior parte das pessoas usa a analogia da nutrição: quanto mais natural, menos danoso à sua saúde e melhor o aroma (imagine um simples suco de laranja espremido na hora e outro de caixinha). Na perfumaria é o contrário. Os ingredientes utilizados contêm, in natura, alérgenos que podem causar dermatites ou até mesmo câncer. Pensando nisso (e também na economia de dinheiro, tempo e energia na extração) e incentivados pelos ativistas ambientais, cientistas passaram a sintetizar as matérias-primas, começando pela cumarina (amêndoas, 1868), heliotropina (cereja, 1869), vanilina (baunilha, 1877) e isobutilquinoleína (couro, 1880).

Nascia aí a perfumaria moderna

Dando um salto quântico em direção a um universo virtualmente infinito de possibilidades. Na virada do século, odores de flores como violeta, íris, jasmim, gerânio, rosa, cravo e lírio também foram sintetizados, enquanto moléculas de textura e fixação (base do perfume) como musgo de carvalho, âmbar gris, madeiras nobres e almíscares surgiram na segunda metade do século XX. Hoje a tecnologia permite a identificação da estrutura de praticamente qualquer aroma através do método de headspace.

O movimento hippie / new age iniciado nos Estados Unidos (especialmente Califórnia) nos anos 60 e firmado nos anos 70 trouxe à tona diversos temas importantes, entre eles os direitos dos animais e a preocupação com o meio ambiente.

Quando o sintético é mais ético e sustentável do que o natural

De fato, o cobiçado musk do veado almiscareiro só podia ser obtido através da caça e abate – prática hoje banida mundialmente. Outro mal-entendido que persevera até hoje é de que os sintéticos usados em perfumes são danosos à saúde. Na verdade, houve um período em que alguns químicos aromáticos cancerígenos eram utilizados (nitromusks, por exemplo), entretanto eles foram retirados da paleta de ingredientes dos perfumistas há décadas. Hoje tudo é estritamente controlado pela IFRA (Associação Internacional de Fragrâncias) – ou ABIFRA no Brasil – com tolerâncias mínimas para que não haja qualquer risco ao consumidor, mesmo que ele decida virar um frasco inteiro cabeça abaixo.

Finalmente, há o mito de que perfumes 100% naturais sejam melhores, tanto em desempenho quanto em aroma. Quem já provou um perfume da Lush, recentemente trazido para o Brasil, sabe bem a diferença. Enquanto uma fragrância sintética (a que conhecemos e compramos em perfumarias) é trabalhada para fazer uma transição suave entre o mundo orgânico e artificial, a fragrância que usa muitos componentes naturais costuma ter aspecto medicinal e narcótico, principalmente na saída (os primeiros minutos depois da aplicação). A primeira provada pode ser traumatizante. Aí muitos consumidores reclamam que o perfume é ruim, que é truque de marketing… Não é. Eles são o que prometem ser: 100% naturais.

Eles têm seu público cativo, um nicho bem definido, mas estão longe de ser uma tendência e, muito menos, referência para a perfumaria como um todo. Voltando à metáfora inicial, pense na pessoa que está acostumada a tomar suco de caixinha e que resolva tomar um suco de laranja natural, pensando ser a melhor opção. Isso realmente pode lhe fazer um estrago no estômago, assim como uma fragrância orgânica pode assustar um nariz despreparado. Por outro lado, não nego que uma gota de matéria-prima natural possa transformar a mediocridade em obra-prima. Literalmente uma gota em um litro. Parece homeopatia – quanto menor a dose, maior o impacto.

Texto de Daniel Barros Fragrance Coach

PERFUME NATURAL OU SINTÉTICO – QUAL A MELHOR ESCOLHA?

Quando se considera o monumental aumento dos aficionados pela beleza natural, que instintivamente evitam qualquer coisa sintética quando se trata de cuidados com a pele, cabelos, cosméticos ou fragrâncias. Afinal, a pele é o maior órgão do corpo e mais de 60% do que colocamos é absorvido pela corrente sanguínea, pelos outros órgãos e pelas células. E isso sem falar na preocupação com os produtos sintéticos que chegam ao meio ambiente, através da poluição do ar em ambientes fechados ou ao ar livre ou a possibilidade deles chegarem a ecossistemas marinhos. Mas no caso do perfume, pode não ser tão simples quanto escolher fragrâncias naturais e se sentir mais seguro ou mais ético.

O que é importante notar, no entanto, é que ambas as fragrâncias sintéticas e naturais podem conter alérgenos (componentes que desencadeiam reações alérgicas) – e isso significa que uma fragrância natural tem a mesma probabilidade de causar irritação na pele como uma fórmula sintética.

Na verdade, os óleos essenciais são muito mais altos em alérgenos como limoneno, citral e geranoil – então a verdade surpreendente é que fragrâncias totalmente naturais e orgânicas não devem ser sempre consideradas melhores para nossa pele, especialmente como substitutas se sofrermos de sensibilidades cutâneas.

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